Kathleen não sabia por que estava correndo, mas sabia que parecia um bom motivo.
Olhou pra trás por cerca de dois segundos, viu um borrão de quatro pessoas. Provavelmente mais mortos vivos. Olhando para frente percebeu que Vicente corria tremendamente rápido pela rua, mesmo segurando um saco cheio de suprimentos. Um barulho fez com que ele parasse, Kathleen emparelhou com ele seus pulmões doendo e o coração acelerado.
- O que... O que foi? – Perguntou.
- Um carro a nossa frente! – Gritou Vicente com os olhos se transformando em fendas tentando enxergar de longe.
- Não podemos... Voltar, o que faremos? – Perguntou olhando para os lados vendo que estavam cercados. – Kathleen observou Luís ainda segurando a mão da moça que acabara de chegar e emparelhar com eles. Era alta e bem magra, tinha os olhos brilhantes arregalados cor de mel e o cabelo castanho claro estava muito embaraçado apesar de parecer liso.
- Se não dá pra ir em frente vamos subir. – Comentou Vicente pensando rápido, os olhos negros olhando para o muro. Havia um orelhão quebrado um pouco mais a frente. Vicente andou com o passo rápido, ouvindo o barulho do carro se aproximar e subiu com esforço, do orelhão pulou para o muro se agarrando a uma janela com grades que ficava bem mais alta. Kathleen olhou para cima: O prédio era alto e parecia ter cerca de pelo menos vinte andares.
- Você só pode estar brincando cara. – Falou Luís espantado largando a mão da moça e seguindo-o como se fosse um gorila desengonçado.
- Vocês nunca ouviram a frase “Primeiro as damas”? – Perguntou a moça indignada, seguindo-os na hora em que o carro ficou a vista pela rua. Os zumbis estavam se aproximando em uma velocidade surpreendente. Kathleen não disse nada: Fez o mesmo, mas o orelhão que não fora feito para se usar de escadinha quebrou um pedaço, o que fez a loira se desequilibrar um pouco antes de pular. Vicente e Luís estenderam uma das mãos, agarrados nas grades da janela com a outra mão a seguraram com firmeza. Vicente fechou a cara parecendo preocupado ao olhar para baixo.
Os zumbis os alcançaram, estavam bem abaixo deles estendendo as mãos fedorentas e mortas e tentando alcançar freneticamente os pés do quarteto. Kathleen olhou pra baixo e respirou fundo ignorando o fedor de pessoas mortas.
- Agora o que a gente faz? Eles não vão embora, Vi... – A moça estava segurando a grade da janela com tanta força que os nós dos dedos estavam esbranquiçados.
- Acalme-se Mel, estamos vivos não estamos? – Respondeu ele ainda olhando pra baixo.
- Vamos morrer sem a comida que fomos buscar. – Mel parecia incrivelmente mal humorada já que tinham deixado tudo para trás.
- É melhor você ficar feliz de você não ser comida. – Kathleen disse e para sua surpresa sem muito esforço. O português estava começando a ficar fácil.
Luís riu, tirando de Vicente apenas um sorriso. Mel olhava para a moça como se quisesse jogá-la aos zumbis a qualquer momento.
- Afinal, quem é ela? – Perguntou a moça fitando Kathleen como se ela fosse uma coisa muito desagradável.
- Essa é Kathleen. – Apresentou Vicente pensando sinceramente que não era hora para isso.
- Oi. – Falou Kathleen sem sorrir, olhando para cima pensativa.
O carro passou direto por eles em alta velocidade, buzinou como se zombasse do quarteto e foi embora.
Mel começou a fazer um discurso enorme sobre como era difícil fugir dos carros que ligavam sozinhos e qual era a sua teoria do porque ligavam e perseguiam pessoas. Kathleen não estava prestando atenção em uma só palavra, ainda olhava pra cima com olhar pensativo. Luís parecia prestar atenção como se fosse interessante, Vicente parou de prestar atenção e olhou curioso para Kathleen, olhou para onde ela estivera olhando, mas não entendeu.
- O que foi? – Perguntou interrompendo a interminável reclamação de Mel.
- Tem uma janela sem grades mais em cima, estou vendo se tem como subir. – Respondeu com os olhos azuis começando a lacrimejar já que nem se atrevia a piscar.
- Eu te ajudo. Sobe no meu ombro e vê se dá pra alcançar. – Falou Luís esperançoso.
- Ok. – Kathleen sorriu pela primeira vez para Luís, que apesar de sério agora estava sorrindo.
Kathleen segurou a parte mais alta da grade e colocou o pé sobre o ombro de Luís que fez uma pequena careta. A loira sempre fora boa em escalar coisas quando era criança, parecia não ter perdido seu talento. Agarrou-se a pequena jardineira mais acima no muro com a ponta dos dedos que doeram instantaneamente com o esforço. Ela ficou pendurada enquanto um pouco de terra caia, respirou fundo e forçou os braços para tentar subir de vez no pequeno canteiro. Quando colocou os cotovelos em cima da terra achou que estava perto o suficiente da janela e estendeu uma das mãos segurando-se apenas com o cotovelo direito.
- Deus, ela vai cair! – Exclamou Mel com os olhos arregalados.
- Se eu cair juro que vou tentar me agarrar a você só de raiva. – Resmungou cerrando os dentes com a força que estava fazendo. Era demais, não agüentaria muito mais tempo.
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