terça-feira, 18 de janeiro de 2011

04 - Uma janela de esperança.

Kathleen não sabia por que estava correndo, mas sabia que parecia um bom motivo.
Olhou pra trás por cerca de dois segundos, viu um borrão de quatro pessoas. Provavelmente mais mortos vivos. Olhando para frente percebeu que Vicente corria tremendamente rápido pela rua, mesmo segurando um saco cheio de suprimentos. Um barulho fez com que ele parasse, Kathleen emparelhou com ele seus pulmões doendo e o coração acelerado.
- O que... O que foi? – Perguntou.
- Um carro a nossa frente! – Gritou Vicente com os olhos se transformando em fendas tentando enxergar de longe.
- Não podemos... Voltar, o que faremos? – Perguntou olhando para os lados vendo que estavam cercados. – Kathleen observou Luís ainda segurando a mão da moça que acabara de chegar e emparelhar com eles. Era alta e bem magra, tinha os olhos brilhantes arregalados cor de mel e o cabelo castanho claro estava muito embaraçado apesar de parecer liso.
- Se não dá pra ir em frente vamos subir. – Comentou Vicente pensando rápido, os olhos negros olhando para o muro. Havia um orelhão quebrado um pouco mais a frente. Vicente andou com o passo rápido, ouvindo o barulho do carro se aproximar e subiu com esforço, do orelhão pulou para o muro se agarrando a uma janela com grades que ficava bem mais alta. Kathleen olhou para cima: O prédio era alto e parecia ter cerca de pelo menos vinte andares.
- Você só pode estar brincando cara. – Falou Luís espantado largando a mão da moça e seguindo-o como se fosse um gorila desengonçado.
 - Vocês nunca ouviram a frase “Primeiro as damas”? – Perguntou a moça indignada, seguindo-os na hora em que o carro ficou a vista pela rua. Os zumbis estavam se aproximando em uma velocidade surpreendente. Kathleen não disse nada: Fez o mesmo, mas o orelhão que não fora feito para se usar de escadinha quebrou um pedaço, o que fez a loira se desequilibrar um pouco antes de pular. Vicente e Luís estenderam uma das mãos, agarrados nas grades da janela com a outra mão a seguraram com firmeza. Vicente fechou a cara parecendo preocupado ao olhar para baixo.
Os zumbis os alcançaram, estavam bem abaixo deles estendendo as mãos fedorentas e mortas e tentando alcançar freneticamente os pés do quarteto.   Kathleen olhou pra baixo e respirou fundo ignorando o fedor de pessoas mortas.
- Agora o que a gente faz? Eles não vão embora, Vi... – A moça estava segurando a grade da janela com tanta força que os nós dos dedos estavam esbranquiçados.
- Acalme-se Mel, estamos vivos não estamos? – Respondeu ele ainda olhando pra baixo.
- Vamos morrer sem a comida que fomos buscar. – Mel parecia incrivelmente mal humorada já que tinham deixado tudo para trás.
- É melhor você ficar feliz de você não ser comida. – Kathleen disse e para sua surpresa sem muito esforço. O português estava começando a ficar fácil.
Luís riu, tirando de Vicente apenas um sorriso. Mel olhava para a moça como se quisesse jogá-la aos zumbis a qualquer momento.
- Afinal, quem é ela? – Perguntou a moça fitando Kathleen como se ela fosse uma coisa muito desagradável.
- Essa é Kathleen. – Apresentou Vicente pensando sinceramente que não era hora para isso.
- Oi. – Falou Kathleen sem sorrir, olhando para cima pensativa.
O carro passou direto por eles em alta velocidade, buzinou como se zombasse do quarteto e foi embora.
Mel começou a fazer um discurso enorme sobre como era difícil fugir dos carros que ligavam sozinhos e qual era a sua teoria do porque ligavam e perseguiam pessoas. Kathleen não estava prestando atenção em uma só palavra, ainda olhava pra cima com olhar pensativo. Luís parecia prestar atenção como se fosse interessante, Vicente parou de prestar atenção e olhou curioso para Kathleen, olhou para onde ela estivera olhando, mas não entendeu.
- O que foi? – Perguntou interrompendo a interminável reclamação de Mel.
- Tem uma janela sem grades mais em cima, estou vendo se tem como subir. – Respondeu com os olhos azuis começando a lacrimejar já que nem se atrevia a piscar.
- Eu te ajudo. Sobe no meu ombro e vê se dá pra alcançar. – Falou Luís esperançoso.
- Ok. – Kathleen sorriu pela primeira vez para Luís, que apesar de sério agora estava sorrindo.
Kathleen segurou a parte mais alta da grade e colocou o pé sobre o ombro de Luís que fez uma pequena careta.  A loira sempre fora boa em escalar coisas quando era criança, parecia não ter perdido seu talento. Agarrou-se a pequena jardineira mais acima no muro com a ponta dos dedos que doeram instantaneamente com o esforço. Ela ficou pendurada enquanto um pouco de terra caia, respirou fundo e forçou os braços para tentar subir de vez no pequeno canteiro.  Quando colocou os cotovelos em cima da terra achou que estava perto o suficiente da janela e estendeu uma das mãos segurando-se apenas com o cotovelo direito.
- Deus, ela vai cair! – Exclamou Mel com os olhos arregalados.
- Se eu cair juro que vou tentar me agarrar a você só de raiva. – Resmungou cerrando os dentes com a força que estava fazendo. Era demais, não agüentaria muito mais tempo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

03 - Corre!


Kathleen corria desesperada pela rua deserta, tentando não fazer barulho. Não sabia quantos dias se passaram. Talvez cerca de oito desde que estava nessa situação de matar e fugir. As ruas estavam muito destruídas e a cada dia parecia ficar pior. Por alguma razão aquele quarto misterioso ficava do outro lado da cidade que mal conhecia. Queria chegar logo até o bar do Karl, a esperança a mantinha viva. Eles tinham que estar vivos.
Logo descobrira que tinha que andar uma quantidade considerável já que os carros ligavam e rodavam sozinhos, atropelando pessoas e o que estivesse no caminho. Sem motorista, sem nada. Várias coisas a preocupavam, mesmo armada tinha medo: Não sabia atirar bem e agora tinha apenas uma bala, gastara as outras quando descobriu que os mortos se levantavam e tentavam devorá-la.  Até agora tinha encontrado tipos complicados: Zumbis, bonecas assassinas e carros diabolicamente astutos. Chegaria ao outro lado da cidade em mais dois dias se continuasse naquele ritmo. Isso a desanimava, mas era bom ter um objetivo. Saber mais ou menos para onde ir mantinha a moça viva, motivada, esperançosa.
Se eu escapar disso um dia, vou escrever um livro sobre. – Pensou quase sorrindo.
Vira dois sobreviventes pelas portas escancaradas de um supermercado abandonado. Aproximou-se com cuidado, a mochila imunda de sangue e o liquido preto (descobrira ser o sangue das bonecas) balançava furiosamente. Dois sobreviventes pegavam tudo que podiam e colocavam em sacos grandes de pano.
- A Mel tá demorando demais.  – Falou um deles jogando pacotes de biscoito dentro do saco.
- Então vai procurá-la! – Respondeu o outro homem com um sorriso irônico.
- Dane-se! Temos que ir embora logo. – O homem dos biscoitos finalmente notou Kathleen e se assustou, puxando uma arma da cintura.
O homem dos biscoitos era alto e forte, vestia uma camiseta cinza rasgada e suja, uma calça jeans surrada e tênis também acabados pelo gasto. Estavam levemente manchados de sangue. Tinha olhos castanhos e cabelo encaracolado. O rapaz mais novo do sorriso irônico estava vestindo uma camiseta parecida, mas era vermelha. Usava um short azul marinho manchado de sangue na lateral esquerda.  O cabelo era liso e preto, os olhos também pretos, mas muito brilhantes.
- Ei! Ei! Calma aí cara... Não é uma ameaça. – O rapaz de olhos negros estendeu a mão, segurando o braço do companheiro. – Além disso, vai atrair coisas desagradáveis se puxar o gatilho. – Completou olhando para a moça.
- Hã... Oi. – Falou ela confusa e curiosa, fazia tempo que não via nada além de coisas perigosas.
- Ela nem de longe é daqui... Você é do sul? – Perguntou o de olhos pretos curioso, levantando uma sobrancelha.
Kathleen riu.
- Não sou brasileira. – Respondeu com o forte sotaque.

- Meu nome é Vicente, esse aqui é o Luís. – Indicou o rapaz dos olhos pretos com um sorriso curto.
- Para de tagarelar, vocês vão atrair alguma coisa. – Luís colocou a arma na cintura novamente e deu as costas a Vicente, começando a andar até o fundo do supermercado.
- Onde você tá indo? – Perguntou Vicente erguendo novamente uma das grossas sobrancelhas.
- Eu vou buscar a Mel. Querendo ou não precisamos dela. – Respondeu o homem sem nem mesmo se virar.  

- Pra onde você está indo? – Perguntou.
- Eu estou indo para o outro lado da cidade. – Respondeu a moça forçando o cérebro para falar em português.
Vicente riu.  - Qual dos outros lados da cidade?
- Hm, eu estou indo em direção a uma Lagoa... Deve saber do que estou falando.
- Entendi.  Escute, estamos indo quase na mesma direção... Mas quando chegar a certo ponto vai pegar outra direção. Quer ir com a gente até lá? – Kathleen pensou por alguns segundos, mas não teve tempo de responder ao convite do rapaz.
- CORRE! – Luís gritou do fundo do supermercado, sua mão firme segurava a mão de uma moça mais ou menos da idade de Kathleen.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

02 - Pequeninas e assassinas surpresas

Kathleen acordou confusa, não sabia onde estava nem o que estava acontecendo. O quarto onde estivera dormindo sabe-se lá deus por quantas horas não lhe era nada familiar. Parecia um quarto de hotel, estava muito organizado. A loira pulou da cama, olhando ao redor via móveis de madeira belos, a mesa na sala chamou sua atenção: Apesar de tudo estar totalmente organizado os papéis que estavam em cima pareciam muito atraentes. Pegou uma folha e leu:


Senhorita Kathleen, fico contente com sua visita. Agora é que as coisas vão ficar interessantes sem o seu pequeno amigo esquentadinho. Espero que se divirta no tema dos próximos dias, eu o escolhi em sua homenagem.Tem uma mochila em cima do sofá. Você vai precisar.

Soltou o papel e em um flash se lembrou de Karl, onde será que ele estava? Estava bem? O que ele queria dizer com tema? Será que isso é algum delírio ou sonho? O acontecido da corrente era real? As perguntas não paravam de circular por sua mente.  Respirou fundo por um momento, tentando colocar a cabeça no lugar. Não teve tempo de pensar muito nas respostas, andou até a sala e encontrou a mochila descrita no bilhete: Uma mochila azul e cinza, grande e resistente. Em seu interior encontrou suprimentos e uma pequena arma, uma pistola desconhecida. Kathleen nunca se dera muito bem com armas, mas aquilo parecia promissor.  Pegou a arma e a colocou na cintura. Fuçando mais na mochila encontrou duas mudas de roupa, uma escova de dente e pasta.
- Parece até que eu vou acampar. – Pensou ela em voz alta, rindo sem entender nada.  Colocou a mochila nas costas, ainda tentando pensar. No quarto tinha que ter um telefone, queria ligar para Karl e o resto de seus amigos. Andou até uma porta pensando que podia ser outro quarto e abriu curiosa. Para a sua surpresa era a porta para uma rua movimentada.  Ouviu um barulho de vidro se quebrando. Kathleen voltou alguns passos e sua voz morreu na garganta. Cinco delas andavam passo a passo como bebês horripilantes, saindo da janela: Eram bonecas daquelas que as garotinhas costumam pedir para suas mães, feitas em borracha vestidas com vestidinhos barangos e coloridos, com olhos geralmente azuis e um pequeno tufo de cabelo na cabeça careca.  Pelo menos mais dez delas tentavam entrar, colocavam aqueles bracinhos pequenos e borrachudos por cima de um pedaço de vidro que ainda se mantinha de pé.  
As mãos de Kathleen tremiam muito, aquilo só podia ser um terrível pesadelo.  As bonecas entravam pela janela e paravam, olhando fixamente para ela. Uma delas se agachou e pegou um pedaço de vidro pontudo. As outras simplesmente viram e a imitaram. A que pegara o caco primeiro deu um sorriso de borracha, muito assustador. As bonecas que deviam fazer a alegria de garotinhas pareciam vindas do inferno, filhas da puta. – Concluiu Kathleen se afastando e olhando a porta que tinha aberto antes. Ao tocar na maçaneta os pezinhos de borracha começaram a correr seguindo-a e para sua surpresa eram terrivelmente rápidos.
Não sabia onde estava, mas o terror tomara conta dela. Bonecas assassinas, bilhetes de um maluco... Isso só podia ser um pesadelo.
Kathleen começou a correr o mais depressa que podia. Tentou encontrar um ponto de referência pra saber onde estava, mas a rua movimentada não parecia a mesma. Não haviam mais carros e nem mesmo uma única pessoa na rua. Parou um segundo confusa, onde diabos estou? – Pensou.
Péssima escolha. Uma das bonecas a alcançara e cravara sem dó seu caco de vidro na perna de Kathleen, rasgando o tecido leve de sua calça e fazendo bastante sangue cair na calçada. Mais assustada que tudo ela chutou a boneca com a perna machucada e saiu correndo sem se preocupar com a direção.
Não sei pra onde estou indo, mas com tantas “Surpresas” não é hora pra pensar nisso. Onde será que está Karl? – Pensou.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

01 - Eu sou... Digital.

 Karl ao entrar no quarto surpreendeu-se: Kathleen estava caída no chão. Os gritos continuaram a ser ouvidos, mas a moça estava desacordada.
- Aqui! – Gritou desesperada. – Ao olhar a fonte dos gritos, Amanda descobriu que vinham do notebook da moça, que estava sobre a mesa.
- Alguém tira essa gravação? – Karl falou incomodado. – A Kathleen precisa ir ao hospital, está gelada.
- Vou chamar uma ambulância. – Falou Amanda tirando o celular do bolso.
- Jesus, Amy!
- Eu sei Jake, meu celular sempre está comigo... Nem precisa zoar – Respondeu Amy discando o número para a ambulância. Jake riu. Karl desviou os olhos de Kathleen por um momento e deu-lhe um olhar de censura. Jake intimidando-se pelo olhar andou até o notebook da moça, não tinha nada aberto: A não ser um vídeo. Parecia filmado por uma Webcam: Filmava Kathleen, que estava presa por uma corrente no pulso e tinha o rosto bem vermelho, como ficava após chorar muito. Ergueu as sobrancelhas, curioso. Nunca tinha visto isso antes. Quando e por que esse vídeo foi gravado? Jake analisou o contador no vídeo, o que eram aqueles números abaixo e a direita? Kathleen sentou-se no chão e começou a chorar mais.
O rapaz olhou para o horário que aparecia no Notebook, sabia que Kathleen era muito metódica e a hora com certeza estaria certa. Para a sua surpresa os números do relógio do Notebook batiam exatamente com o contador no vídeo, se tratava da hora. Mas era impossível, Kathleen estava no quarto.  Deu uma olhada para trás, Karl passava a mão no cabelo da moça desmaiada carinhosamente.
- Não entendo. – Falou Jake com um leve sotaque.
- Do que está falando? – Perguntou Amanda que já tinha desligado o celular.
- Isso aqui. – Jake indicou o Notebook com um aceno de cabeça. Karl levantou-se e tocou a tela com o dedo indicador, interessado e curioso. Algo estranho aconteceu: Karl olhou para a tela fixamente, deu um pequeno grito espantado e caiu no chão, pálido e desmaiado.
- Karl! – Exclamaram Amy e Jake em uníssono.
Jake olhou a tela:
Karl tinha aparecido ao lado de Kathleen como se caísse de um buraco inexistente no teto. Uma corrente no pulso direito tilintava prendendo-o ao chão.
- Mas o que está acontecendo aqui?! – Jake falou ajoelhando-se ao lado de Karl.

Amanda andou até o Notebook, curiosa e assustada.
- Não toca nessa coisa! – Jake falou tentando ser racional.
A tela ficou preta por uns segundos, como se o Notebook tivesse se desligado.

- Karl! – Kathleen o abraçou ignorando o tilintar da corrente.
- O que está acontecendo? – Perguntou confuso, sua cabeça parecia querer explodir de tanta dor.
- Não sei, eu estava fazendo umas coisas no meu Notebook e acordei aqui.

- Bem vindos. – Uma voz metálica, artificial falou com tom amigável. Kathleen e Karl se entreolharam. – Parece que eu tenho um convidado inesperado. Vocês vão descobrir que aqui nada é inesperado pra mim, só pra vocês. – Continuou. – A loira olhou para os lados, Karl não procurava a voz: Sua cabeça doía tanto que apenas queria o silêncio. Uma pessoa saiu da parede branca como se fosse um fantasma. Os dois arregalaram os olhos: Usava roupas pretas em conjunto com uma capa também preta e máscara branca. Uma máscara lisa onde só os olhos ficavam a mostra. Os olhos apesar disso não apareciam, pelos buracos só dava para ver o preto como todo o tecido.
- Esse mundo como vocês dois podem ver... É o meu mundo. Bem vindos ao meu lugar. – As mãos enluvadas se estenderam e apontaram o teto.
Karl olhou para o pulso acorrentado e uma onda de raiva percorreu todo seu corpo como uma corrente elétrica. Não sabia o que estava acontecendo, mas com certeza o maluco de capa era a causa disso.
- Você! Onde estamos? – Karl levantou-se, a corrente tilintando e limitando seus movimentos.  O mascarado pareceu suspirar por baixo da máscara.
- Você é burro ou o que? Acabei de dizer, vocês estão no meu mundo. Eu tenho muita coisa pra fazer. – O mascarado deu as costas para Karl, que não podia estar mais furioso. Saiu correndo, avançando como um animal raivoso. Kathleen assustou-se: Nunca tinha visto o amigo com tamanho olhar de ódio.
A corrente fez barulho metálico, mas antes que Karl alcançasse o suposto inimigo seu pulso foi puxado com muita força, a corrente se encurtara e o fez cair no chão.  
- Nãnãnã... – O mascarado fez um sinal negativo com o indicador. – Você não pode me machucar aqui, nem sequer encostar.
- Puta merda, quem raios é você?! – Gritou Kathleen quebrando o próprio silêncio.
- Eu? – O mascarado olhou para cima, como se estivesse pensando a respeito. – Eu sou... Digital.